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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O Pensador




O Pensador (francês: Le Penseur) é uma das mais famosas esculturas de bronze do escultor francês Auguste Rodin. Retrata um homem em meditação soberba, lutando com uma poderosa força interna. 
Numa breve reflexão sobre o significado desta obra, é impossível escapar à pergunta: em que pensa o pensador? Aquela imagem de meditação profunda, aquela atitude de introspecção meditativa não apela, a meu ver, para o simples ato de raciocínio.
Talvez ele pense na natureza dos próprios pensamentos. Porque pensar é também um ato que advém da alma e não apenas da inteligência. Na verdade, pensar é muito mais que raciocinar. O cérebro pode escravizar e alienar o ser humano, tanto quanto a sua dimensão física.
O pensador de Rodin pensa e sente; talvez chore e ria; talvez o faça apenas dirigindo-se ao seu próprio interior. Porque a nudez do corpo nada diz sobre a imensidão do seu íntimo. A nudez exprime a dimensão estética; a reflexão explora toda a dimensão da alma.
Talvez hoje, mais de um século passado sobre a obra de Rodin, seja necessário pensar um pouco mais na inutilidade da dimensão física e na escravidão do raciocínio. Talvez o convite deste pensador seja o retorno ao universo imenso e encantador da alma; onde a poesia e a arte preenchem a espírito; onde o sentido da vida se resume ao verdadeiro sentir, ao mundo encantado, mas profundamente humano das emoções e dos sentimentos; ao universo infinito onde se encontra a alegria, o amor e a felicidade.
Acesso em: http://artepoeticaencontros.blogspot.com.br/2010/04/o-pensador-augusto-rodin.html

Crônica : 'O empregado tem carro e anda de avião. Estudei pra quê?'



Se você, a exemplo dos professores que debocharam de passageiro "mal-vestido" no aeroporto, já se fez esta pergunta, parabéns: você não aprendeu nada
por Matheus Pichonelli — publicado 07/02/2014 13:20, última modificação 10/02/2014 11:01

O condômino é, antes de tudo, um especialista no tempo. Quando se encontra com seus pares, desanda a falar do calor, da seca, da chuva, do ano que passou voando e da semana que parece não ter fim. À primeira vista, é um sujeito civilizado e cordato em sua batalha contra os segundos insuportáveis de uma viagem sem assunto no elevador. Mas tente levantar qualquer questão que não seja a temperatura e você entende o que moveu todas as guerras de todas as sociedades em todos os períodos históricos. Experimente. Reúna dois ou mais condôminos diante de uma mesma questão e faça o teste. Pode ser sobre um vazamento. Uma goteira. Uma reforma inesperada. Uma festa. E sua reunião de condomínio será a prova de que a humanidade não deu certo.
Dia desses, um amigo voltou desolado de uma reunião do gênero e resolveu desabafar no Facebook: “Ontem, na assembleia de condomínio, tinha gente 'revoltada' porque a lavadeira comprou um carro. ‘Ganha muito’ e ‘pra quê eu fiz faculdade’ foram alguns dos comentários. Um dos condôminos queria proibir que ela estacionasse o carro dentro do prédio, mesmo informado que a funcionária paga aluguel da vaga a um dos proprietários”.
Mais à frente, ele contava como a moça havia se transformado na peça central de um esforço fiscal. Seu carro-ostentação era a prova de que havia margem para cortar custos pela folha de pagamento, a começar por seu emprego. A ideia era baratear a taxa de condomínio em 20 reais por apartamento.
Sem que se perceba, reuniões como esta dizem mais sobre nossa tragédia humana do que se imagina. A do Brasil é enraizada, incolor e ofuscada por um senso comum segundo o qual tudo o que acontece de ruim no mundo está em Brasília, em seus políticos, em seus acordos e seus arranjos. Sentados neste discurso, de que a fonte do mal é sempre a figura distante, quase desmaterializada, reproduzimos uma indigência humana e moral da qual fazemos parte e nem nos damos conta.
Dias atrás, outro amigo, nascido na Colômbia, me contava um fato que lhe chamava a atenção ao chegar ao Brasil. Aqui, dizia ele, as pessoas fazem festa pelo fato de entrarem em uma faculdade. O que seria o começo da caminhada, em condições normais de pressão e temperatura, é tratado muitas vezes como fim da linha pela cultura local da distinção. O ritual de passagem, da festa dos bixos aos carros presenteados como prêmios aos filhos campeões, há uma mensagem quase cifrada: “você conseguiu: venceu a corrida principal, o funil social chamado vestibular, e não tem mais nada a provar para ninguém. Pode morrer em paz”.
Não importa se, muitas e tantas vezes, o curso é ruim. Se o professor é picareta. Se não há critério pedagógico. Se não é preciso ler duas linhas de texto para passar na prova. Ou se a prova é mera formalidade.
O sujeito tem motivos para comemorar quando entra em uma faculdade no Brasil porque, com um diploma debaixo do braço, passará automaticamente a pertencer a uma casta superior. Uma casta com privilégios inclusive se for preso. Por isso comemora, mesmo que saia do curso com a mesma bagagem que entrou e com a mesma condição que nasceu, a de indigente intelectual, insensível socialmente, sem uma visão minimamente crítica ou sofisticada sobre a sua realidade e seus conflitos. É por isso que existe tanto babeta com ensino superior e especialização. Tanto médico que não sabe operar. Tanto advogado que não sabe escrever. Tanto psicólogo que não conhece Freud. Tanto jornalista que não lê jornal.
Função social? Vocação? Autoconhecimento? Extensão? Responsabilidade sobre o meio? Conta outra. Com raras e honrosas exceções, o ensino superior no Brasil cumpre uma função social invisível: garantir um selo de distinção.
Por isso comemora-se também à saída da faculdade. Já vi, por exemplo, coordenador de curso gritar, em dia de formatura, como líder de torcida em dia de jogo: “vocês, formandos, são privilegiados. Venceram na vida. Fazem parte de uma parcela minoritária e privilegiada da população”; em tempo: a formatura de um curso de odontologia, e ninguém ali sequer levantou a possibilidade de que a batalha só seria vencida quando deixássemos de ser um país em que ter dente é, por si, um privilégio.
Por trás desse discurso está uma lógica perversa de dominação. Uma lógica que permite colocar os trabalhadores braçais em seu devido lugar. Por aqui, não nos satisfazemos em contratar serviços que não queremos fazer, como lavar, passar, enxugar o chão, lavar a privada, pintar as unhas ou trocar a fralda e dar banho em nossos filhos: aproveitamos até a última ponta o gosto de dizer “estou te pagando e enquanto estou pagando eu mando e você obedece”. Para que chamar a atenção do garçom com discrição se eu posso fazer um escarcéu se pedi batata-fria e ele me entregou mandioca? Ao lembrá-lo de que é ele quem serve, me lembro, e lembro a todos, que estudei e trabalhei para sentar em uma mesa de restaurante e, portanto, MEREÇO ser servido. Não é só uma prestação de serviço: é um teatro sobre posições de domínio. Pobre o país cujo diploma serve, na maioria dos casos, para corroborar estas posições.
Por isso o discurso ouvido por meu amigo em seu condomínio é ainda uma praga: a praga da ignorância instruída. Por isso as pessoas se incomodam quando a lavadeira, ou o porteiro, ou o garçom, “invade” espaços antes cativos. Como uma vaga na garagem de prédio. Ou a universidade. Ou os aeroportos.
Neste caldo cultural, nada pode ser mais sintomático da nossa falência do que o episódio da professora que postou fotos de um “popular” no saguão do aeroporto e lançou no Facebook: “Viramos uma rodoviária? Cadê o glamour?”. (Sim, porque voar, no Brasil, também é, ou era, mais do que se deslocar ao ar de um local a outro: é lembrar os que rastejam por rodovias quem pode e quem não pode pagar para andar de avião).
Esses exemplos mostram que, por aqui, pobre pode até ocupar espaços cativos da elite (não sem nossos protestos), mas nosso diploma e nosso senso de distinção nos autorizam a galhofa: “lembre-se, você não é um de nós”. Triste que este discurso tenha sido absorvido por quem deveria ter como missão a detonação, pela base e pela educação, dos resquícios de uma tragédia histórica construída com o caldo da ignorância, do privilégio e da exclusão.
 Matheus Pichonelli Formado em jornalismo e ciências sociais, é editor-assistente do site de CartaCapital

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Ser


Ser eu mesma
Significa ter personalidade,
tomar decisões e
arcar com as consequências.
Acima de tudo, Ser eu,
implica em aceitar-me
do jeito que eu sou.
Reconhecer fraquezas,
mesmo que as não mereça.
Sorrir, reconhecer e
saber que mesmo
o ser mais fraco
tem seu lado belo:
Seu sorriso franco e sincero
entre lágrimas de
tristeza ou alegria
E com isto
peitar-se em fazer
poesia sem rima, sem som
ou melodia.
Apenas poesia para quem nela acredita
e assim impingir luz, som e magia.

Para ouvir

Eu tenho um pouco de girassol. (Van Gogh)

papagaio123

Vaso com doze girassóis(janeiro de 1889).Philadelphia Museum of Art, Filadélfia.     

Uma luz, que na falta de palavra melhor, não posso denominá-la de outro modo, senão amarela. (Van Gogh sobre os girssóis)

Para superar esse elevado tom de amarelo a que cheguei neste verão, tiver de superar limites. (Van Gogh em carta ao irmão Theo)

Ao se falar sobre a obra de Vincent van Gogh, logo vem à nossa mente os seus belos girassóis. O artista holandês não foi o primeiro a eleger tão belas flores como tema, mas, sem dúvida, nenhum outro pintor deu-lhes tamanha vitalidade e força, como o fez Van Gogh.

A famosa série de girassóis (sete quadros com um número de três, cinco, doze e quinze girassóis) exigiu muita dedicação e urgência do pintor, pois, se as flores eram colocadas num vaso de manhã cedo, murchavam ao fim de algumas horas. Como Van Gogh tinha como característica a rapidez com que pintava, era recompensado pela velocidade ao pintar seus girassóis. Nenhum outro pintor poderia captar a beleza que ele imprimia em suas telas, resultante da presteza de seu olhar diante da transitoriedade das flores. O amarelo dos girassóis vinha carregado da mais pura magia, com se nele estivessem agregados pedaços do sol.

O girassol sempre esteve ligado à simbologia, representando fecundidade, vida e nostalgia, em função de sua relação com o astro rei. Como um ser devoto, ele se ajoelha diante do sol, acompanhando-o na sua trajetória de vida, recebendo a luz que dele emana com abundância. Apenas na sua maturação, o girassol cessa a sua reverência, paralisando-se na posição da nascente. Talvez seja por isso que Van Gogh tenha se encantado tanto com os girassóis.

Embora o artista tenha dado início à temática dos girassóis em Paris, abandonando as tonalidades do cinza e buscando uma escala de cores mais vivas, foi em Arles, para onde partira em busca de luminosidade, que encontrou a explosão do amarelo, ou seja, foi onde encontrou a mais alta nota amarela, que já vinha buscando na capital parisiense.

Quando observamos a série de girassóis de Van Gogh, somos tomados pela exuberância da cor amarela, que invade toda a tela, diante de nossos olhos extasiados. Ali também encontramos os tons vermelhos, azuis e verdes que parecem ter a função de apenas realçar a luminosidade do amarelo.

Ao pintar sua série de girassóis, Van Gogh tinha como objetivo decorar o seu ateliê, preparando-o para receber o seu amigo, também pintor, Gauguin, pois sabia que ele também tinha predileção pelo tema. De modo que as pinturas foram penduradas no quarto de hóspedes. O pintor holandês pensava em pintar muitos outros quadros sobre girassóis, mas acabou não concretizando seu objetivo. Perfeccionista, Van Gogh só considerou bons, dois dos quadros pintados, colocando neles a sua assinatura.

Van Gogh sempre deixou claro que Os Girassóis estavam inclusos entre as suas obras mais importantes, pelo modo como os pintou, usando apenas uma gama de cor – o amarelo e sutis matizes de linhas vermelhas e azuis.

Todos os amigos do pintor conheciam o amor que ele nutria pelos girassóis. Adeline Ravoux, filha dos donos da pensão, onde Van Gogh se hospedava antes de dar fim à vida, assim se expressou, ao falar sobre seu enterro:

Seus amigos trouxeram muitas flores amarelas, principalmente dálias e girassóis.
Segundo alguns diagnósticos não comprovados, Vincent van Gogh sofria de xantopsia (visão dos objetos em amarelo) e, por essa razão, dava-se o exagero do amarelo em sua pintura. Outra teoria fala sobre o uso de digitalis, receitado pelo doutor Cachet, que poderia ter ocasionado sua visão amarelada. E outros documentos ainda relatam que na verdade ele era daltônico. Trocando em miúdos, quanto mais famoso é o gênio, maior é o número de teorias.

Assim como o girassol transforma seu olhar apaixonado pela luz do sol que a tudo dá vida (…), a Arte da Pintura, por inata inclinação, animada por um fogo sagrado, segue a beleza da Natureza. (Joost van der Vondel, poeta holandês no século XVII)
(*) Doze Girassóis numa Jarra (1888)

É tida como uma das melhores e mais famosas obras do pintor holandês, tendo sido trabalhada com pouquíssima cor, além do amarelo, façanha técnica quase inigualável. Encontra-se entre as telas mais famosas do mundo. Tal sucesso e reconhecimento contrastam com a vida de Van Gogh que sempre viveu com extrema dificuldade e à margem da sociedade da época.

Fontes de pesquisa:
Mestres da Pintura/ Editora Abril
Grandes Mestres da Pintura/ Coleção Folha
Van Gogh/ Editora Taschen
Van Gogh/ Girassol